quinta-feira, março 02, 2006

Aos meus Filhos

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

FERNANDO PESSOA

4 Comments:

Blogger FSantos said...

O penúltimo verso não será uma indirecta ao Dr. Salazar?

9:30 da manhã  
Blogger Lucas said...

Também altamente recomendável na versao musicada e cantada por José Campos e Sousa.

10:12 da manhã  
Blogger FSantos said...

Nem mais.

11:55 da manhã  
Blogger Mendo Ramires said...

Caros Lucas e FG Santos: Muito bem lembrado; o álbum «Em Pessoa», de José Campos e Sousa, é obrigatório.

10:52 da manhã  

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