sexta-feira, junho 23, 2006

Denunciando mais uma aberração

Acabadinho de chegar por e-mail:

Os deputados sabichões

Pedro Vassalo (*)

António é meio psicopata. Como sabe que não há limite para ser dador tem um sonho (louco) de ser pai de mil crianças. Pode? Pode, porque na nova lei não há qualquer limite para um homem ser dador.
Depois de assistirem a uma sessão de esclarecimento, em Faro, Maria e Francisco perceberam o problema: o que fazer dos três embriões congeladoshá anos? A idade desaconselha a educação de uma nova criança (e há três embriões), e Francisco recusa-se que outra mulher possa receber o embrião. Explica que não quer dar de caras, no futuro, com um filho que não conhece. E destruí-los? Quem decide? O médico? Carlos, lisboeta, concebido artificialmente, namora com Joana, também concebida da mesma forma. Querem casar, ou viver juntos, mas têm medo defazer o teste não vá serem irmãos! É que eles não sabem, nem podem saber, porque o dador é anónimo. António, portuense de gema, é meio psicopata. Como sabe que não há limite para ser dador tem um sonho (louco) de ser pai de mil crianças. Pode? Pode, porque não há qualquer limite para um homem ser dador.Teresa, alentejana de Évora, concebeu artificialmente, mas nada disse ao marido, porque a lei permite que a mulher possa conceber artificialmente quando quiser. E assim viveram anos. O filho/a é herdeiro/a?
Quem leu até aqui o texto, julgará que trata sobre ficção científica. Mas engana-se. Tudo isto está previsto na lei aprovada no Parlamento naquinta-feira.(**) Duvido que os deputados percebam o que votaram. E a dúvida só existe porque uma lei desta magnitude merece a reflexão que não aconteceu. E porquê? Não sei dizer.Há inúmeros países na Europa que já trataram deste assunto e o debateram vezes sem conta. Foram consultados especialistas médicos e juristas de renome, académicos que estudam a ética em profundidade e escreveram sobre o assunto. E falo de países que estão longe, muito longe, de poderem ser considerados confessionais ou onde não exista investigação científica digna do nome (caso da Alemanha). E o que se sabe é que as soluções foram muito diferentes do que foi aprovado entre nós.Talvez por isso um conjunto de cidadãos conseguiu recolher quase 80 mil assinaturas em pouco mais de dois meses e meio. A intenção? Pedir aos deputados que se querem aprovar uma lei sem um mínimo de debate público, que não consta do seu programa eleitoral e se não querem saber de outras experiências, então que se dignem a consultar o povo.
Há uns meses, o país votou expressivamente num candidato (por acaso socialista) que clamava por maior intervenção do povo na política. Há semanas, um conjunto de arquitectos influenciou, e bem, o Parlamento para aprovar uma lei. Agora há quase 80 mil eleitores, reunidos em tempo recorde, que pedem para serem ouvidos e... nada. Dir-se-á que é gente simples, sem formação e incapaz de perceberem esteproblema. Talvez. Mas convinha saber que estão no rol apenas cinco membros do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, um antigo reitor daFaculdade de Medicina de Lisboa, Toscano Rico, professores de Medicina como Gentil Martins, juristas como Germano Marques da Silva, políticos como António Capucho e Bagão Félix, jornalistas como Laurinda Alves. Fico pois satisfeito de saber que os nossos deputados encerram em si sabedoria tamanha que lhes permite dispensar tantos e avisados conselhos. Provavelmente devem estudar tudo isto quando tiram as tais férias sem explicação aparente, ou suspendem os mandatos. Mas estou a ser injusto, porque as tais férias a que me refiro são com certeza para ir junto do povo, nos respectivos círculos eleitorais, explicar que o querem ouvir, saber das suas angústias porque, afinal de contas, eles (deputados) só lá estão para o representar. Como diz uma amiga, só faltava que o poder consultasse o povo.

(*) Mandatário para o referendo sobre a RMA
(**) 25.05.2006 - 18h08 - Lusa A Lei de Reprodução Medicamente Assistida (RMA) foi aprovada esta tarde noParlamento, com os votos favoráveis da esquerda e de oito deputados do PSD, e os votos contra da bancada do CDS-PP e da maioria dos deputados social-democratas.Na bancada do PS, as deputadas Matilde Sousa Franco e as duas independentes do Movimento Humanismo e Democracia, Teresa Venda e Maria do Rosário Carneiro, votaram contra. No PSD, oito deputados votaram favoravelmente a nova legislação, enquanto 21 se abstiveram. Os restantes deputados sociais-democratas, votaram contra.Na bancada do CDS-PP, todos os deputados votaram contra o texto final do projecto de lei, mas o deputado António Pires de Lima irá apresentar umadeclaração de voto. A votação da nova lei sobre RMA foi antecedida da votação de um requerimento apresentado pelo CDS-PP, que solicitava "o adiamento, pelo prazo de uma semana, da votação final global do texto final apresentado pela comissão de saúde". No requerimento, que foi rejeitado e mereceu apenas os votos favoráveis do CDS-PP e do PSD, argumentando estes que na sequência da entrega esta manhã no Parlamento de 77.046 assinaturas em defesa de um referendo sobre a RMA, o processo de votação devia ser suspenso.

2 Comments:

Blogger aba said...

Caro Mendo Ramires,
a questão da consulta popular, pela reserva que tenho em relação ao nível de esclarecimento com que os portugueses se pronunciariam ou venham a pronunciar, suscita-me uma dúvida: o critério de base ética deve prevalecer sobre o critério de base técnica?

Por princípio, nada contra que uma mulher engravide com a utilização de gâmetas de um dador desconhecido, desde que financie do seu bolso todo o processo. Cada um faz o que quer do seu corpo, desde que não sejam os impostos de todos a pagar

Relativamente às barrigas de aluguer, tenho todas as reservas; Éticas e legais, pela facilidade com que podem ocorrer distorções do princípio.

Saudações,
António

11:31 da tarde  
Blogger Bom Garfo said...

Caro António,

Uma das conquistas da esquerda após o 25 de Abril foi acabar com filhos de pai incógnito; ironicamente, é essa mesma esquerda que defende hoje o direito da mulher a ter filhos de pai incógnito.

Quanto ao nível de esclarecimento dos portugueses, é de lamentar que alguns pensem que a maioria é um bando de mentecaptos; é através da falácia paternalista da “menoridade intelectual” dos portugueses, que uma minoria de sabichões pretende impor ditatorialmente a sua visão particular sobre determinadas matérias. Mais respeito pelo Povo -- precisa-se; guardem a arrogância para vosso consumo privado, que também não paga imposto.

Aqui nãos e trata de critérios de base ética ou técnica; trata-se de bom-senso. Basta ler o texto do post para que mesmo um diminuído mental perceba o que você fez questão de dar a entender que não percebeu.

Saudações
Orlando

6:05 da manhã  

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