quinta-feira, abril 27, 2006

Preconceitos e Surpresas

O amigo Aba — senhor de um espaço cultural de notável bom-gosto — mostra surpresa, numa caixa-de-comentários cá da Torre, por eu gostar da Música anteriormente referida; diz ele que me imaginava apenas apreciando "Música Clássica". (O que de seguida vou dizer não o visa como destinatário, pois já percebi que ele tem a (velha) escola toda!).
Essa sua simpática observação serve-me, pois, apenas, de leitmotiv para abordar um tema — assim, ao correr das teclas, como quem não quer a coisa ... — que, desde sempre, me atormentou.

Hoje em dia, as pessoas, ao conhecerem outras, tentam, de imediato, arrumá-las em compartimentos pré-estabelecidos na sua cabeça; esta, por sua vez, foi formatada pelas balizas culturais que lhe são servidas (nas famílias, nas escolas, nos trabalhos). É normal, e até desejável, que assim seja. O problema começa quando, mesmo sem querer, isso se torna uma obsessão tipo quebra-cabeças e os tiros saem todos ao lado. A razão, para que o tiro-ao-alvo falhe, está bem de ver qual é. A sociedade — e não a tradicional e boa comunidade — tem a cabeça cheia de preconceitos que lhes foram impingidos pelos "leaders de opinião". A coisa já dura desde finais da II Guerra Mundial e não há meio de mudar — para só falar dos tempos contemporâneos, dentro da modernidade a que temos direito.

Não se pense que estou já a preparar um ataque ao desgraçado deslumbramento e provincianismo português. Não. Aconteceu-me em Londres, por exemplo, nos meus tempos de estudante, solteiro e bom-rapaz, pôr as inglesas — da casa onde vivi — à beira de um ataque de nervos quando não conseguiam estabelecer pontos de contacto entre os livros que eu lia, a roupa que vestia, os concertos que frequentava, os jornais e revistas que comprava... Entendamo-nos: para aquele frio raciocínio britânico — temperado, no entanto, por calor humano —, quem veste isto não lê esse jornal e quem lê este livro não pode ler também aquele e muito menos quem fala com estes vai àqueles concertos...!

Escusado será dizer que, em Portugal, o mesmo me acontece — desde que penso pela minha própria cabeça — quase todos os dias...! Se, do ponto-de-vista individual, esta situação é desagradável à primeira vista, pode, no entanto, tornar-se divertida se estivermos com disposição e tempo para gozar o prato. O pessoal (pós-)moderno não está preparado para lidar com a diferença não etiquetada (a treta da igualdade — bem niveladinha por baixo — deu-lhes volta à cabeça); e, tudo o que saia da grelha é um sarilho para aquelas cachimónias.

Já do ponto-de-vista político vai ser a doer.
Por estas e outras, o Sistema terá uma surpresa brutal: a imagem que a ditadura cultural de esquerda andou a vender da «extrema-direita», durante anos, não existe; e, as pessoas já descobriram. A Direita é diversificada e tem aí a sua maior riqueza, contrariamente à sinistra. Saiba o Nacionalismo crescer na Unidade da diversidade e o III Milénio será de Ressurreição.

2 Comments:

Blogger alex said...

" A Direita é diversificada e tem aí a sua maior riqueza,..."

Certo.
É um património e uma riqueza...mas também um fraqueza.

A Esquerda, mas monolítica e ideológicamente mais 'compacta' congrega-se muito mais fácilmente, levando assim por diante os seus objectivos.

Já a(s) Direita(s)....

O Mendo Ramires imagina-se, em caso de 'necessidade', a conseguir uma plataforma de entendimento com um Liberal, por exemplo??

Pois se calhar não...
Digo eu.



ps - confesso que, nos primeiros tempos, o imaginava de lacinho, sempre todo 'engomado', bigodes à D.Carlos, cabelo com brilhantina, de alfarrrábios debaixo do braço, brandindo ameaçadoramente uma bengala pelas ruas de Lisboa e por aí com uns 60 e tal anos... :))

6:54 da tarde  
Blogger Mendo Ramires said...

Agradeço o seu comentário, caro Buiça. É divertido e enriquecedor.

1:49 da tarde  

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